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Quinta-feira, 5 de Julho de 2007

Avó, mãe da minha vida.

Disseram-me que ela tinha morrido e eu acreditei. Disse a toda a gente que ela tinha morrido e menti. Quem morreu fui eu e ela continua viva aqui dentro de mim, imortal em tudo o que faço e sustentada por tudo o que penso.

Disseram-me que ela tinha sido morta por uma doença que ninguem sabia o nome e eu acreditei. Mas afinal a morta fui eu com essa notícia que me chegava fria e incolor naquela tarde cinzenta e feia na qual, eu emprestei as minhas lágrimas geladas à chuva, que teimava em cair e que me lavava a alma, e ficara limpa e vazia a partir do momento em que não mais me levantei para continuar a ser eu.

Hoje em cada pedaço meu vive o sorriso dela. Em cada gesto meu mora o olhar dela. Em cada hora apertada bate o coração dela… Quando choro são as lágrimas dela que rolam pela minha pele. Quando falo são as palavras dela que se escapam do meu silêncio dramatizado pelo tempo. Quando durmo é ela que habita tudo o que sonho.As minhas mãos são o reflexo do toque das dela. O meu olhar acolhe a mesma luz que era só dos olhos dela. Eu e ela éramos um só ser. Eu sou apenas uma metade e esta metade que sobra é ela… E sem ela apaguei-me e apagaram-se todas as luzes que me mostravam um mundo a cores e não um mundo a preto e branco como ele agora é.

Disseram-me que a vida continuava. Disseram-me que esta é a lei da vida. Disseram-me… Disseram-me! Mas ninguém quis ouvir o que eu tinha para dizer. Ninguém quer ouvir o que eu tenho cá dentro aprisionado desde aquela tarde fria e chuvosa em que me disseram que ela foi levada. Disseram-me que sentiam muito. Disseram-me que com o tempo esta dor aguda e inconstante passava. Mentiram-me… A dor não passa e ninguém sentiu e sente mais do que eu… E sabem porquê? Porque eu era ela… E porque ela sou eu.

Ela morreu e eu fiquei aqui. O tempo passa e eu finjo viver… Porque é ela quem vive por mim. Ela foi morta e eu fiquei parada no tempo e perdida naquela tarde. A doença levou-a, mas a dor achou-me abandonada e deitou-se nas penas da minha existência como se de uma almofada branca se tratasse. Ela meteu os dedos no meu sangue e pintou-me um coração novo no lugar de um que já não batia, e agora este só bate porque é ela quem mo ordena. Ela soprou uma alma nova dentro deste corpo que se arrasta pelos dias e se encosta pelos anos porque eu lhe prometi que ia ser feliz… Eu não sou senão o que restou dela… E se os meus dias dependessem da contagem dos mesmos pelos meus dedos, eu partiria um a um para não ter de avançar mais um dia com aquela tarde que vive entranhada na minha cabeça e serve de peso morto nas minhas costas… E se cada dia dependesse do piscar dos meus olhos eu não mais os abriria para não ter de rever aquela tarde da qual ainda sinto o cheiro e os pingos de chuva certeiros na cara.

Disseram-me que ela morreu feliz. Mas eu vivo triste porque não sei viver sem ela… Como tal é ela quem vive por mim… Como tal esta que vês não sou eu… Esta é apenas o meu reflexo comandado pela minha avó, que me guia entre caminhos que nunca quis ver e me afasta de encruzilhadas que não sei que existem. Ela é que voa e me puxa aqui do fundo, de volta para a vida, e me mostra que afinal o meu caminho segue em frente e me proíbe de olhar para trás, para aquela tarde… Mas ela sou eu e eu quase não consigo deixar de acordar no meio da chuva e de pensar que quem morreu fui eu e não ela… Vivo por ela e com ela dentro de cada poro da minha pele, misturada com a o sangue que insiste em me correr nas veias… Ela vive e dança ao som da música do meu coração que bate, bate, bate e bate porque sei que ela sou eu… E se eu sou ela não posso desistir e deixar que a existência dela se apague da mente de todos que um dia choraram a sua morte… E porque ela sou eu e somos apenas um desde que nos conhecemos, não deixarei que ela caia num poço de esquecimento e que se afogue nas lágrimas secas de quem já não me pergunta por ela, mas que eu respondo na mesma dizendo que
eu vivo por ela.

sinto-me:
publicado por estrelinha-cadente às 00:57
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2 comentários:
De trz a 20 de Julho de 2007 às 17:40
Excelente texto, de uma fluência emotiva extraordinária.

Foi bom descobrir que escreves assim, que poucos são os que entornam a alma sem papas na língua.

De deirdre a 4 de Julho de 2008 às 18:26
Um texto muito bonito.
Senti muito a perda da nossa avó, mas entendo que vocês que viveram sempre mais perto dela, ainda sentiram mais, reconheço isso.
Mas quero partilhar contigo dois momento que me marcaram muito. O primeiro foi quando decidi ir ver a avó ao centro de dia. " Tens de ir ver a avó, está cada vez pior." E eu ía adiando a visita com medo de como a iria encontrar. Até que um dia fiz-me forte e entrei sozinha, perguntei por ela e levaram-me á zona das refeições.
Foi nesse instante em que a vi, que percebi que a minha avó já não era " a minha avó" , parecia uma menina que estava a aprender a comer, desageitada nos gestos. Sentei-me ao lado dela e não contive o choro, chorei e nem consegui falar. Ela também não me deu muita importãncia, foi como se eu fosse uma fantasma que ela simplesmente não viu.
A senhora que me levou até ela tentou-me acalmar, depois levantou-a e levou-a até uma sala de estar, onde outros velhotes estavam sentados.
Sentei-me ao seu lado, e então sairam-me algumas palavras, é claro que nunca tive resposta. Mas por momentos tive a sensação que os seus olhos falaram, o que ela já não coseguia põr em palavras.
Foram alguns dos momentos mais duros que vivi em toda a minha vida. O outro foi quando um dia a fui ver a casa e ela disse que eu não era a neta dela. Foi a primeira pessoa querida que eu perdi.
Hoje ainda me vem a sua imagem á memória.
Certa noite, pouco tempo depois da sua morte, sonhei com ela, nunca tinha tido um sonho tão real, acordei assustada. Nem sequer contei este sonho ao meu pai. Sonhei que ela estava lá em casa, na cozinha, e que só eu a via, mais ninguém. E gritava desalmadamente: " Não vês é a avó que está aqui!!" E toquei-lhe no rosto errugado, e lembro-me de ter pensado que estava fria... depois acordei.
Mas tenho também boas recordações, lembro particularmente de quando entrei para escola, de ela nos ir buscar, a mim e ao meu primo Paulinho, e lá iamos nós, encavalitados um no outro porque não havia mais espaço, por causa das hotaliças, das couves e da fruta que ela levava para a praça!

Um beijinho

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