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. Sonhos
Acordando, ela pensa no que já não vale a pena. Quando se desloca, em cada passo, em cada batimento do seu pé sobre a terra nunca antes pisada ela pensa em algo q nunca tinha pensado, surgem lhe assim pensamentos sobre os quais é emergida uma terrivel vontade de desaparecer... nesse sentido, antes de qualquer cruzar de bracos..ela entrega-se e acaba por morrer.
E tu? disses-te-lhe o q havia por dizer?
São muitas as palavras, que nunca serão prenuciadas por ela... Ela engole sentimentos, e acumula sensações, esquece-se permanentemente de definir as coisas, um dia quando quiser dizer algo cujo nunca mencionou não sabera unir as letras e formar a palavra que nunca falou... Ficará presa num vazio obscuro. Ficará distante de tudo o que a rodeia, isto porque ela hesitou.
"Rotação"
"É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar."
Nuno Júdice, In Pedro Lembrando Inês
Demasiado importante para deixar de REpublicar...
Disseram-me que ela tinha morrido e eu acreditei. Disse a toda a gente que ela tinha morrido e menti. Quem morreu fui eu e ela continua viva aqui dentro de mim, imortal em tudo o que faço e sustentada por tudo o que penso.
Disseram-me que ela tinha sido morta por uma doença que ninguem sabia o nome e eu acreditei. Mas afinal a morta fui eu com essa notícia que me chegava fria e incolor naquela tarde cinzenta e feia na qual, eu emprestei as minhas lágrimas geladas à chuva, que teimava em cair e que me lavava a alma, e ficara limpa e vazia a partir do momento em que não mais me levantei para continuar a ser eu.
Hoje em cada pedaço meu vive o sorriso dela. Em cada gesto meu mora o olhar dela. Em cada hora apertada bate o coração dela
Quando choro são as lágrimas dela que rolam pela minha pele. Quando falo são as palavras dela que se escapam do meu silêncio dramatizado pelo tempo. Quando durmo é ela que habita tudo o que sonho.As minhas mãos são o reflexo do toque das dela. O meu olhar acolhe a mesma luz que era só dos olhos dela. Eu e ela éramos um só ser. Eu sou apenas uma metade e esta metade que sobra é ela
E sem ela apaguei-me e apagaram-se todas as luzes que me mostravam um mundo a cores e não um mundo a preto e branco como ele agora é.
Disseram-me que a vida continuava. Disseram-me que esta é a lei da vida. Disseram-me
Disseram-me! Mas ninguém quis ouvir o que eu tinha para dizer. Ninguém quer ouvir o que eu tenho cá dentro aprisionado desde aquela tarde fria e chuvosa em que me disseram que ela foi levada. Disseram-me que sentiam muito. Disseram-me que com o tempo esta dor aguda e inconstante passava. Mentiram-me
A dor não passa e ninguém sentiu e sente mais do que eu
E sabem porquê? Porque eu era ela
E porque ela sou eu.
Ela morreu e eu fiquei aqui. O tempo passa e eu finjo viver
Porque é ela quem vive por mim. Ela foi morta e eu fiquei parada no tempo e perdida naquela tarde. A doença levou-a, mas a dor achou-me abandonada e deitou-se nas penas da minha existência como se de uma almofada branca se tratasse. Ela meteu os dedos no meu sangue e pintou-me um coração novo no lugar de um que já não batia, e agora este só bate porque é ela quem mo ordena. Ela soprou uma alma nova dentro deste corpo que se arrasta pelos dias e se encosta pelos anos porque eu lhe prometi que ia ser feliz
Eu não sou senão o que restou dela
E se os meus dias dependessem da contagem dos mesmos pelos meus dedos, eu partiria um a um para não ter de avançar mais um dia com aquela tarde que vive entranhada na minha cabeça e serve de peso morto nas minhas costas
E se cada dia dependesse do piscar dos meus olhos eu não mais os abriria para não ter de rever aquela tarde da qual ainda sinto o cheiro e os pingos de chuva certeiros na cara.
Disseram-me que ela morreu feliz. Mas eu vivo triste porque não sei viver sem ela
Como tal é ela quem vive por mim
Como tal esta que vês não sou eu
Esta é apenas o meu reflexo comandado pela minha avó, que me guia entre caminhos que nunca quis ver e me afasta de encruzilhadas que não sei que existem. Ela é que voa e me puxa aqui do fundo, de volta para a vida, e me mostra que afinal o meu caminho segue em frente e me proíbe de olhar para trás, para aquela tarde
Mas ela sou eu e eu quase não consigo deixar de acordar no meio da chuva e de pensar que quem morreu fui eu e não ela
Vivo por ela e com ela dentro de cada poro da minha pele, misturada com a o sangue que insiste em me correr nas veias
Ela vive e dança ao som da música do meu coração que bate, bate, bate e bate porque sei que ela sou eu
E se eu sou ela não posso desistir e deixar que a existência dela se apague da mente de todos que um dia choraram a sua morte
E porque ela sou eu e somos apenas um desde que nos conhecemos, não deixarei que ela caia num poço de esquecimento e que se afogue nas lágrimas secas de quem já não me pergunta por ela, mas que eu respondo na mesma dizendo que
eu vivo por ela.
Um dia ela amou. Voou até ao céu e não voltou. Sonhou com futuros cinematográficos. Viveu num mundo paralelo. Acreditou na vida e quis ficar fechada com ele, para sempre, num quarto sem saída.
Um dia ele saiu... do quarto, do seu coração e da sua vida. Enviou-a de volta para a terra, sem sonhos e sem futuros ficcionados. Plantou-lhe dúvidas sobre o amor e a vida... E ela quis ficar fechada, sozinha, para sempre, num quarto sem saída.
Um dia ela voltará a amar. Voltará a sonhar. Voltará a acreditar que o céu é uma tela e que o futuro é dela. Vai reaprender a acreditar na vida e vai encontrar a saída...